sexta-feira, 28 de março de 2014

E lá se foram 11 anos...

Filho.

Hoje você completa 11 anos de vida. 11 anos!
Meu Deus, como o tempo passou depressa demais.
Antes você era a imagem em um monitor, um tanto distante, difícil pra mim de materializar

 Ontem mesmo eu te peguei no colo pela primeira vez, em um momento de profunda contemplação e absurda perplexidade.


Tantas coisas aconteceram, e foram tantas as noites mal dormidas, por tantos motivos diferentes. As apreensões naturais do seu desenvolvimento, por sua saúde, por sua educação, por tudo.
Mas cada vez que te coloquei no meu peito e senti seu coração batendo sobre o meu (é difícil escrever),  senti que nosso encontro nesse mundo seria especial.



Costumo dizer para todos que não importa o que aconteça, temos um ao outro. Posso vir a ter 100 filhos (nem tanto), mas você só tem um pai, e não imagino nada diferente do que ser 100% para você. 
E você cresceu...
Aprendeu a andar no dia do meu aniversário, na minha frente, me dando o melhor presente de aniversário da minha vida!


Aprendeu a falar, e contra todas as expectativas e tendências, falou papai.
Aprendeu números e cores, formas... Aprendeu a ler aos 5 anos!
Sempre admirei sua capacidade de aprendizado, sua inteligência (corujice à parte). E tive eu que aprender a lidar com essa inteligência e suas vertentes (teimosia, ponto de vista, argumentação).

 E você foi crescendo, me ensinando tudo, até o que nunca imaginei ser necessário, e continua a ser assim.
E foi se transformando em um amigo, um parceiro inseparável. Alguém que tento ajudar a ser um homem de bem, correto, de caráter e de bondade.

E sei que nossos caminhos vão naturalmente um dia se distanciar, porque lhe dou assas para que possas voar os voos mais altos que tua imaginação conceber, esperando que aches sempre o caminho de casa, que voltes sempre a deitar sobre o meu peito.

Não importa a tua idade, meu amigo. Sempre serás meu pequeno.

Que Deus te abençoe sempre.

feliz aniversário



domingo, 18 de setembro de 2011

Teimosia e Perseverança

Costumo brincar com os amigos que você é muito parecido comigo fisicamente, o mais parecido é o branco do olho. O resto é tudo igualzinho à sua mãe.

Nosso ego paternal nos provoca a buscar em você um traço, um trejeito, qualquer coisa, que mesmo sendo fruto de coincidência mera e simples, possa nos identificar como pai e filho.

No nosso caso, meu filho, Inegável a igualdade de personalidade. Se Sua mãe, muitas vezes brincando ri e diz que vou pagar todos os meus pecados, sua avó Nair chega a se emocionar em certos momentos e enche os olhos d'água, me cochichando baixinho "nasceu de novo, meu filho".

Eu te digo com honestidade que sempre achei isso, essa semelhança, mas sou desqualificado para esse julgamento.

Se por um lado é facilitado o processo de tentar te entender e entrar na sua cabecinha, por outro há choque de galáxias, catastróficos, dada a igualdade de personalidade.

Desde pequeno tento te explicar a diferença entre a teimosia e a perseverança. Coisas que podem parecer semelhantes, mas são diferentes na sua essência. Infelizmente, quanto mais imaturo e inexperiente a gente é, maior a presença da teimosia. Perseverança exige segurança, nossa ou emprestada, e às vezes isso leva tempo.

Um dos melhores e mais frustrantes momentos da minha vida de pai veio no dia em que te comprei uma bicicleta. Pensei e planejei aquele momento várias vezes, esperando uma reação e empolgação sua, etc, etc. Comprei com um certo sacrifício, sabe? estava passando por um momento financeiro difícil, e aqueles R$ 255,00 iriam fazer falta. Mas o teu sorriso iria me recompensar pra sempre. Então corri pra comprar aquela que seria a tua companheira mais íntima, constante e motivo de alegria, toda decorada com motivos do "Amazing Spider Man", azul e vermelha.
Natal, e tava lá ela, toda embrulhada pra presente (deu um trabalho enorme embrulhar). Você olhou, arregalou esses olhos castanhos claros lindos e rasgou tudo, e depois, assim como eu faço, marejou os olhos e me abraçou. Aquele "obrigado papai" não saiu nunca mais de dentro de mim.

E depois de previsiveis experiencias frustradas com a bicicleta você desistiu dela. E por mais que eu insistisse em que você tentasse aprender, te contando das milhares de aventuras que vivi com minha bicicleta, nada te fazia mudar de idéia. E aí meu anjo começou a aprender como ser teimoso, fincando o pé, uma vez que suas explicações eram sempre que a bicicleta iria te derrubar, como num pinote de cavalo bravo.

Teimosia sua, em não tentar, minha, em insistir na tentativa.

Conversei com sua avó sobre como eu ficava irritado com aquilo, com minha frustração e pela sua teimosia sem noção e sem razão. Ela me ouviu quieta, riu de leve e disse, "nasceu de novo, meu filho", e abriu uma gargalhada. Eu fiquei irritado com ela de imediato, mas em seguida me ocorreu um estalo: você estava em uma queda de braço comigo, e eu não tinha entendido isso. Mas era hora da conversa fabio-edu, dos dois meninos que se pareciam. E era hora da posição Pai-filho, para tentar te mostrar que a gente faz tudo por amar você.

Te chamei no canto do quarto do computador e te falei "hoje vamos aprender a andar de bicicleta", e antes que você terminasse seu lamúrio, me agachei pra ficar da sua altura e te olhar os olhos, pra te falar "filho, você confia em mim?".
Claro que essa pergunta desarma as ponderações, pois o apelo é emotivo.

Fomos para casa buscar sua bicicleta, abandonada há quase 2 anos. No caminho várias insistências para dissipar os sentimentos de imposição, mas no fundo era isso mesmo.

Chegamos na praça e antes de qualquer coisa, conversamos sobre a diferença entre teimosia e persistência.
-Filho, eu sempre fui muito teimoso e persistente, e ao longo desses anos aprendi a ser muito pouco teimoso, a ser persistente na medida certa.
-É pai?
-É, e não foi fácil, porque eu ficava magoado de um jeito estranho sendo teimoso. E muitas vezes quando conseguia o que queria, tinha um sentimento de vazio junto.
-hum.... - você responde me olhando....
-Então... hoje vamos vencer a teimosia juntos e instalar a persistência... Vamos deixar a teimosia sem motivo no porta malas do carro, e vamos ser persistentes. vamos cair algumas vezes, mas vamos aprender a andar de bicicleta. ok?
-É.... - meio desanimado, me olhando....
-Você confia em mim?
-Confio.
-Então vamos juntos. Eu vou te segurar enquanto for preciso. depois eu te solto.
-eu vou cair?
-é, você vai cair algumas vezes, e nós vamos levantar e continuar. eu vou ficar com você o tempo todo. Tudo bem?
-tá, pai.

Corri atrás da sua bicicleta, te aparando pelos ombros quando você pendia para os lados, e dando as instruções básicas, quase cuspindo fora os meus pulmões sedentários, te levantei, caí com  você, e vi nos seus olhinhos lindos, um ar sério e focado.

você estava quase conseguindo já, quando eu te segurei por trás da  bicicleta e disse "filho, você está fazendo tudo certo, você vai conseguir, eu confio em você", "agora vai lá e se diverte".
Te empurrei e lá foi você, chacoalhando, pedalando e andando seus primeiros metros em cima de uma bicicleta... andou uns 20 metros até aquele poste se meter na sua frente e te parar.
Eu gritei, pulei, corri... te catei do chão e rimos muito.

No fim da tarde voce já estava sozinho, pedalando, caindo  e levantando, e eu sentado no banco da praça, te vendo e rindo. na hora de irmos pra casa, te perguntei o que você achava de andar de bicicleta. Sua reposta foi "é megalegal".

Já em casa, na hora de dormir, te falei que estava orgulhoso de você.
-porque aprendi a  andar de bicicleta?
-não, meu filho, é porque você aprendeu que a perseverança é mais importante do que a teimosia.

Eu te amo, filho.


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Três Meninos

 

Você vai aprender que muitas vezes o que separa homens de meninos é o preço dos brinquedos.

Na semana passada você entrou no carro com esse pedacinho de papel na mão.

 

Carta para Vov Eduardo002

PARA: VOVÔ EDUARDO

Carta para Vov Eduardo001

QUERIDO VOVÔ,

JÁ TE DISSE QUE EU ACHO VOCÊ DEMAIS? BOM, FAZ TEMPO QUE VOCÊ NÃO NOS VISITA. QUE TAL ALGUM DIA VOCÊ VIR. BOM, O QUE IMPORTA É QUE VOCÊ VENHA NÃO É? EU ESTOU MORRENDO DE SAUDADE. TOMARA QUE SEJA LOGO.

COM AMOR E BEIJOS,

EDUARDO.

Eu li e na mesma hora me correu um frio pela barriga. Você não sabe, mas claro que há muito mais história nesse pedacinho de papel do que você pode imaginar.

A minha relação com o seu avô já oscilou do céu ao inferno, foi e voltou, várias vezes. Ele já foi o meu herói e meu bandido, já fomos unha e carne, ficamos sem nos falar, já me orgulhou e me decepcionou duramente, sumiu e voltou. Talvez essa seja uma história mais comum do que eu imagine, mas é a minha história, e como todo ser humano, a mais importante de todas as histórias.

Um dia vamos conversar longamente pra eu poder te dizer os vários meandros de tudo isso.

Quando a gente tem um filho, naquele momento nasce o pai também. Tudo muda pra sempre, mas, no fundo, eu continuo sendo um menino, filho. Só que agora não posso errar, minhas decisões tem um peso maior e as consequências podem te atingir, então… dá um medo!

E as nossas reações instintivas são impressionantes.

Seu avô escolheu uma vida reclusa, e por muito tempo insistimos para que ele estivesse conosco nos natais, ano novo, aniversário, dia dos pais, e todos os outros dias não-comemorativos do ano. Ele sempre se esquiva, ou diz que vem e não aparece.

Depois de uns anos, isso tudo a gente se acostuma, acaba não mais se afetando tanto. Continua sentindo falta, vai…. mas o sofrimento é menor e mais comum. Lamenta-se mas aceita-se.

Sinto a falta do MEU pai, mas ele já está ausente há muitos anos.

Mas não suporto ver você sentir falta do SEU avô.

E isso, por mais equilibrado e sensato que eu tente ser, nunca vou perdoar o seu avô.

Me perdoe, pai, mas eu não vou conseguir.

Bem, tentar não paga imposto, certo? então lá fui eu copiar e mandar por e-mail para o seu avô o seu cartão. Sabe deus que reação ele teria, mas vai que…

Ele recebeu, leu e escreveu de volta, assim:

Oi filho ! !

        Me fez bem receber o bilhetinho do Edu, a gente vai ficando

velho e cada vez mais sensível. Eu ando num estado de depressão muito grande e tudo me faz chorar, até ao ouvir uma musica que o papai gostava de cantar ou a preferida da mamãe, as lágrimas molham meu rosto.

         Mas isso e coisa de velho mesmo. Mudando de assunto:  eu perdi todos os meus telefones  porque deu um problema em meu aparelho e apagou total sem chance de recuperação. Estou precisando dos telefones seus, da Karla,  Kátia e  Nair, e se você tiver os telefones dos meus irmãos .  Veja o que você consegue.

           Um beijão do Pai  e do avô para o Edu                                                                                    

Eduardo

 

É.

A vida é assim, filho. Surpresas por todos os lados. Hoje, quando fui te buscar no colégio, pouco antes de chegar, telefonei pro seu avô e fui conversando com ele até a porta do colégio, e quando você entrou no carro, coloquei os dois no telefone.

Vocês conversaram muito, riram muito, se emocionaram, choraram e eu também (escondido de você, porque era o seu momento com ele). Ele te aconselhou dizendo que 8,8 em português não era uma nota baixa, e que você não deveria se aborrecer com essa nota (eu havia contado pra ele da sua raiva com essa nota).

Ele desligou me dizendo que vai fazer um esforço pra vir te ver.

Não sei se ele vem mesmo, mas a gente tem que entender, que como você , que sente a falta dele, eu que sinto a sua falta…. ele no fundo, também é um menino, que sente saudade do pai e da mãe, que erra feio, acerta….

e no fundo, somos nós três, três meninos só.

 

Eu te amo Edu.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O quanto vale um sorriso?


Aos dois anos de idade, a gente não se dá conta muito do que ocorre ao nosso redor. A vida é uma coisa instantanea, um dia depois do outro. 
As coisas não andavam bem em casa, muitas dificuldades de todos os lados.

Talvez eu estivesse vivendo como voce, um dia depois do outro.

Mas eu sou o seu pai, e por isso, não tinha o direito de viver desse modo.

Foi duro, filho.

E o que me tirava da cama todas as manhãs, era esse sorriso.

Por ele, enfrentei o momento mais sombrio da minha vida, e saí do outro lado, fortalecido.

Sei que voce vai ter dificuldade de entender isso, por enquanto. Talvez, quando os seus filhos chegarem, tudo se torne mais claro para você. 

O que desejo te deixar de mensagem é que quando a vida for injusta, ou dura com você, tenha em mente que você é muito mais forte do que possa imaginar. E se te faltar apoio, saiba que eu sempre vou estar com você, mesmo quendo eu já tiver partido.

Porque somos, na verdade, um pouco parte um do outro.

Te amo, filho.

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terça-feira, 30 de novembro de 2010

POR QUE ESCREVER


Hoje é um dia triste e diferente em minha vida.
Hoje, eu vi um amigo ser enterrado.
Sei que isso é corriqueiro como um fato inescapável da vida, e que todos os dias isso acontece. Sei que o tempo não para esperando a nossa dor passar, que as faturas continuam vencendo, que os carros continuam passando, que a chuva cai... nada muda de fato.

Mas mudou dentro de mim, para sempre.

Meu amigo não era uma pessoa qualquer: ele era meu amigo. E imaginar que hoje não posso mais falar com ele, vê-lo, rir juntos, realmente machuca muito. Ontem, quando confirmei o inacreditável, a sua perda, tive a tarefa injusta e inglória de comunicar a todos ao meu alcance essa notícia trágica.
E ao passar pelos nomes em minha agenda, via sempre o nome dele, e a sensação de vazio era enorme.

Não imagino que minha dor seja ao menos comprável a de familiares, esposa, pais. Não é, e ainda não sei como apoiá-los.

Cada momento vivido, cada memória deve ser registrada de alguma forma, para que não se perca no tempo, mantendo viva a história de nossas existências.

Mais recentemente encontrei meus amigos de infância pela internet (ou fui encontrado por eles), e a falta de registros de toda natureza me assustou um pouco.

Conversando com meu filho, contei várias histórias divertidas e maravilhosas da minha infância, dos amores, das dores, de dedos ralados de jogar futebol descalço, de roubar goiaba, andar em cima do muro. Ele repetiu quase as mesmas palavras, mas o mesmo sentido, que usei com meu pai, quando um dia, aos 6 anos de idade, ele me contava das suas aventuras infantis: "pai, eu queria estar lá, com você, nas suas histórias".

E reunindo todos os cacos, tenho pensado muito na mortalidade, no tempo e na vida.
Não sou uma pessoa importante, sou apenas mais um no meio da multidão.
Exceto para o Edu.
Enquanto escrevo, na cama ao meu lado, meu filho dorme o sono dos justos. Para ele, com sua memória volátil da infância, é que vou escrever, para que ele possa reviver estes dias, e outros que vivi antes que ele existisse. Assim, quando ele tiver crescido, e a sua memória começar a pregar peças, ele vai ter com que se divertir. E quando eu tiver partido, talvez um pequeno pedaço dessa história possa acalentá-lo, ao menos por um instante. Se isso, e só isso já for conseguido, esse blog já fez mais do que eu esperava.

Não sei o quanto vai ser dito, ou quão longe vai essa idéia.


Daniel, meu amigo, estou sentindo muito a sua falta.