Costumo brincar com os amigos que você é muito parecido comigo fisicamente, o mais parecido é o branco do olho. O resto é tudo igualzinho à sua mãe.
Nosso ego paternal nos provoca a buscar em você um traço, um trejeito, qualquer coisa, que mesmo sendo fruto de coincidência mera e simples, possa nos identificar como pai e filho.
No nosso caso, meu filho, Inegável a igualdade de personalidade. Se Sua mãe, muitas vezes brincando ri e diz que vou pagar todos os meus pecados, sua avó Nair chega a se emocionar em certos momentos e enche os olhos d'água, me cochichando baixinho "nasceu de novo, meu filho".
Eu te digo com honestidade que sempre achei isso, essa semelhança, mas sou desqualificado para esse julgamento.
Se por um lado é facilitado o processo de tentar te entender e entrar na sua cabecinha, por outro há choque de galáxias, catastróficos, dada a igualdade de personalidade.
Desde pequeno tento te explicar a diferença entre a teimosia e a perseverança. Coisas que podem parecer semelhantes, mas são diferentes na sua essência. Infelizmente, quanto mais imaturo e inexperiente a gente é, maior a presença da teimosia. Perseverança exige segurança, nossa ou emprestada, e às vezes isso leva tempo.
Um dos melhores e mais frustrantes momentos da minha vida de pai veio no dia em que te comprei uma bicicleta. Pensei e planejei aquele momento várias vezes, esperando uma reação e empolgação sua, etc, etc. Comprei com um certo sacrifício, sabe? estava passando por um momento financeiro difícil, e aqueles R$ 255,00 iriam fazer falta. Mas o teu sorriso iria me recompensar pra sempre. Então corri pra comprar aquela que seria a tua companheira mais íntima, constante e motivo de alegria, toda decorada com motivos do "Amazing Spider Man", azul e vermelha.
Natal, e tava lá ela, toda embrulhada pra presente (deu um trabalho enorme embrulhar). Você olhou, arregalou esses olhos castanhos claros lindos e rasgou tudo, e depois, assim como eu faço, marejou os olhos e me abraçou. Aquele "obrigado papai" não saiu nunca mais de dentro de mim.
E depois de previsiveis experiencias frustradas com a bicicleta você desistiu dela. E por mais que eu insistisse em que você tentasse aprender, te contando das milhares de aventuras que vivi com minha bicicleta, nada te fazia mudar de idéia. E aí meu anjo começou a aprender como ser teimoso, fincando o pé, uma vez que suas explicações eram sempre que a bicicleta iria te derrubar, como num pinote de cavalo bravo.
Teimosia sua, em não tentar, minha, em insistir na tentativa.
Conversei com sua avó sobre como eu ficava irritado com aquilo, com minha frustração e pela sua teimosia sem noção e sem razão. Ela me ouviu quieta, riu de leve e disse, "nasceu de novo, meu filho", e abriu uma gargalhada. Eu fiquei irritado com ela de imediato, mas em seguida me ocorreu um estalo: você estava em uma queda de braço comigo, e eu não tinha entendido isso. Mas era hora da conversa fabio-edu, dos dois meninos que se pareciam. E era hora da posição Pai-filho, para tentar te mostrar que a gente faz tudo por amar você.
Te chamei no canto do quarto do computador e te falei "hoje vamos aprender a andar de bicicleta", e antes que você terminasse seu lamúrio, me agachei pra ficar da sua altura e te olhar os olhos, pra te falar "filho, você confia em mim?".
Claro que essa pergunta desarma as ponderações, pois o apelo é emotivo.
Fomos para casa buscar sua bicicleta, abandonada há quase 2 anos. No caminho várias insistências para dissipar os sentimentos de imposição, mas no fundo era isso mesmo.
Chegamos na praça e antes de qualquer coisa, conversamos sobre a diferença entre teimosia e persistência.
-Filho, eu sempre fui muito teimoso e persistente, e ao longo desses anos aprendi a ser muito pouco teimoso, a ser persistente na medida certa.
-É pai?
-É, e não foi fácil, porque eu ficava magoado de um jeito estranho sendo teimoso. E muitas vezes quando conseguia o que queria, tinha um sentimento de vazio junto.
-hum.... - você responde me olhando....
-Então... hoje vamos vencer a teimosia juntos e instalar a persistência... Vamos deixar a teimosia sem motivo no porta malas do carro, e vamos ser persistentes. vamos cair algumas vezes, mas vamos aprender a andar de bicicleta. ok?
-É.... - meio desanimado, me olhando....
-Você confia em mim?
-Confio.
-Então vamos juntos. Eu vou te segurar enquanto for preciso. depois eu te solto.
-eu vou cair?
-é, você vai cair algumas vezes, e nós vamos levantar e continuar. eu vou ficar com você o tempo todo. Tudo bem?
-tá, pai.
Corri atrás da sua bicicleta, te aparando pelos ombros quando você pendia para os lados, e dando as instruções básicas, quase cuspindo fora os meus pulmões sedentários, te levantei, caí com você, e vi nos seus olhinhos lindos, um ar sério e focado.
você estava quase conseguindo já, quando eu te segurei por trás da bicicleta e disse "filho, você está fazendo tudo certo, você vai conseguir, eu confio em você", "agora vai lá e se diverte".
Te empurrei e lá foi você, chacoalhando, pedalando e andando seus primeiros metros em cima de uma bicicleta... andou uns 20 metros até aquele poste se meter na sua frente e te parar.
Eu gritei, pulei, corri... te catei do chão e rimos muito.
No fim da tarde voce já estava sozinho, pedalando, caindo e levantando, e eu sentado no banco da praça, te vendo e rindo. na hora de irmos pra casa, te perguntei o que você achava de andar de bicicleta. Sua reposta foi "é megalegal".
Já em casa, na hora de dormir, te falei que estava orgulhoso de você.
-porque aprendi a andar de bicicleta?
-não, meu filho, é porque você aprendeu que a perseverança é mais importante do que a teimosia.
Eu te amo, filho.