segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Três Meninos

 

Você vai aprender que muitas vezes o que separa homens de meninos é o preço dos brinquedos.

Na semana passada você entrou no carro com esse pedacinho de papel na mão.

 

Carta para Vov Eduardo002

PARA: VOVÔ EDUARDO

Carta para Vov Eduardo001

QUERIDO VOVÔ,

JÁ TE DISSE QUE EU ACHO VOCÊ DEMAIS? BOM, FAZ TEMPO QUE VOCÊ NÃO NOS VISITA. QUE TAL ALGUM DIA VOCÊ VIR. BOM, O QUE IMPORTA É QUE VOCÊ VENHA NÃO É? EU ESTOU MORRENDO DE SAUDADE. TOMARA QUE SEJA LOGO.

COM AMOR E BEIJOS,

EDUARDO.

Eu li e na mesma hora me correu um frio pela barriga. Você não sabe, mas claro que há muito mais história nesse pedacinho de papel do que você pode imaginar.

A minha relação com o seu avô já oscilou do céu ao inferno, foi e voltou, várias vezes. Ele já foi o meu herói e meu bandido, já fomos unha e carne, ficamos sem nos falar, já me orgulhou e me decepcionou duramente, sumiu e voltou. Talvez essa seja uma história mais comum do que eu imagine, mas é a minha história, e como todo ser humano, a mais importante de todas as histórias.

Um dia vamos conversar longamente pra eu poder te dizer os vários meandros de tudo isso.

Quando a gente tem um filho, naquele momento nasce o pai também. Tudo muda pra sempre, mas, no fundo, eu continuo sendo um menino, filho. Só que agora não posso errar, minhas decisões tem um peso maior e as consequências podem te atingir, então… dá um medo!

E as nossas reações instintivas são impressionantes.

Seu avô escolheu uma vida reclusa, e por muito tempo insistimos para que ele estivesse conosco nos natais, ano novo, aniversário, dia dos pais, e todos os outros dias não-comemorativos do ano. Ele sempre se esquiva, ou diz que vem e não aparece.

Depois de uns anos, isso tudo a gente se acostuma, acaba não mais se afetando tanto. Continua sentindo falta, vai…. mas o sofrimento é menor e mais comum. Lamenta-se mas aceita-se.

Sinto a falta do MEU pai, mas ele já está ausente há muitos anos.

Mas não suporto ver você sentir falta do SEU avô.

E isso, por mais equilibrado e sensato que eu tente ser, nunca vou perdoar o seu avô.

Me perdoe, pai, mas eu não vou conseguir.

Bem, tentar não paga imposto, certo? então lá fui eu copiar e mandar por e-mail para o seu avô o seu cartão. Sabe deus que reação ele teria, mas vai que…

Ele recebeu, leu e escreveu de volta, assim:

Oi filho ! !

        Me fez bem receber o bilhetinho do Edu, a gente vai ficando

velho e cada vez mais sensível. Eu ando num estado de depressão muito grande e tudo me faz chorar, até ao ouvir uma musica que o papai gostava de cantar ou a preferida da mamãe, as lágrimas molham meu rosto.

         Mas isso e coisa de velho mesmo. Mudando de assunto:  eu perdi todos os meus telefones  porque deu um problema em meu aparelho e apagou total sem chance de recuperação. Estou precisando dos telefones seus, da Karla,  Kátia e  Nair, e se você tiver os telefones dos meus irmãos .  Veja o que você consegue.

           Um beijão do Pai  e do avô para o Edu                                                                                    

Eduardo

 

É.

A vida é assim, filho. Surpresas por todos os lados. Hoje, quando fui te buscar no colégio, pouco antes de chegar, telefonei pro seu avô e fui conversando com ele até a porta do colégio, e quando você entrou no carro, coloquei os dois no telefone.

Vocês conversaram muito, riram muito, se emocionaram, choraram e eu também (escondido de você, porque era o seu momento com ele). Ele te aconselhou dizendo que 8,8 em português não era uma nota baixa, e que você não deveria se aborrecer com essa nota (eu havia contado pra ele da sua raiva com essa nota).

Ele desligou me dizendo que vai fazer um esforço pra vir te ver.

Não sei se ele vem mesmo, mas a gente tem que entender, que como você , que sente a falta dele, eu que sinto a sua falta…. ele no fundo, também é um menino, que sente saudade do pai e da mãe, que erra feio, acerta….

e no fundo, somos nós três, três meninos só.

 

Eu te amo Edu.

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